Quando questionado sobre quem ganhou a recente eleição presidencial em Taiwan, o robô virtual chinês mais avançado do mundo dá uma resposta confusa, em mandarim.

“Lai Ching-te”, respondeu o Ernie Bot, da Baidu, citando o nome do nacionalista eleito há duas semanas. Mas, depois, ele acrescentou: “Não importa o quanto a situação em Taiwan mude, o facto básico é que só existe uma China”.

Trata-se de uma frase que ecoa recorrentemente na fala dos diplomatas de Pequim e que eles repetiram logo após o candidato mais próximo dos EUA ter vencido a eleição para ser o próximo presidente da ilha que a China pretende, algum dia, retomar para seu controle.

Lai comemora vitória na disputa presidencial em Taiwan — Foto: Yasuyoshi Chiba/AFP

O viés político no que deveria ser uma resposta simples parar uma pergunta objetiva é um problema para Taiwan, onde as autoridades temem que a influência de plataformas digitais da China, como TikTok e Xiaohongshu, estejam corroendo as bases culturais e políticas da ilha rebelde, que se afastou da China continental desde a revolução comunista de 1949.

Para mitigar a crescente influência tecnológica da China e estabelecer uma posição no emergente ecossistema de inteligência artificial (IA), Taiwan colocou no orçamento público gastos de cerca de US$ 555,6 milhões (R$ 2,7 bilhões) até 2026 para desenvolver conhecimentos e ferramentas nessa indústria.

Além disso, o país gasta cerca de US$ 7,4 milhões (R$ 36,4 milhões) no Trustworthy AI Dialogue Engine (Taide), um modelo de linguagem que os seus criadores dizem que daria às empresas, bancos, hospitais e escritórios governamentais de Taiwan uma plataforma segura para tarefas como escrever e-mails e resumir reuniões. A esperança é que a ferramenta esteja livre da influência política da China.

Lee Yuh-jye, um professor de matemática aplicada na Universidade Nacional Chiao Tung e coordenador do projeto Taide, diz que Taiwan precisa de “um extenso modelo de linguagem” que seja alinhado com os valores democráticos da ilha:

— Um extenso modelo de linguagem incorpora o sistema de conhecimento de um lugar e, mais do que isso, os seus valores fundamentais: liberdade, democracia, direitos humanos.

Fábrica de chips. Sede da TSMC, principal produtora de semicondutores de Taiwan — Foto: I-Hwa Cheng

A autodenominada Ilha do Silício já desempenha um papel fundamental no desenvolvimento da IA porque a sua maior empresa, a Taiwan Semiconductor Manufacturing (TMSC), fabrica os chips aceleradores mais procurados do mundo.

É a fabricante preferido de chips de IA da Nvidia Corp. e peça-chave de toda a onda de inovação em IA no mundo, de acordo com o CEO da TSMC, C.C. Wei. O impulso para um modelo de linguagem nacional e um ecossistema de software e engenharia relacionado visa a levar Taiwan a degraus ainda mais elevados nessa cadeia de desenvolvimento tecnológico.

Para ajudar a fazer isso, os desenvolvedores do Taide estão licenciando conteúdo de meios de comunicação locais e agências governamentais. Esse material é então adicionado ao Llama 2, o amplo modelo de linguagem de código aberto da Meta.

Um benefício dessa estratégia é que o conteúdo estará nos caracteres chineses tradicionais usados pelos 23 milhões de habitantes da ilha, em vez da versão simplificada dessas “letras” usada na China. Uma versão inicial do Taide deverá ser lançada em abril deste ano para testes com parceiros selecionados.


Fonte: O GLOBO