Raízes que podem atingir até dois metros de altura lembram tentáculos ou grandes pernas de aranha. Ausência da espécie provocaria efeitos em cascata no ecossistema.

Paxiúba — Foto: Brendon Campos/Instituto Inhotim

Porto Velho, RO - Na Amazônia, uma palmeira apoiada sobre raízes que lembram pernas gigantes desperta curiosidade por supostamente se deslocar entre as árvores. Mas a planta anda mesmo? Segundo a doutora em Botânica e professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Osvanda Silva de Moura, tudo não passa de ilusão.

"É um processo natural de substituição das raízes de apoio. Novas raízes crescem e as antigas se decompõem, gerando uma falsa sensação de movimento", explica.

Ou seja, as novas raízes crescem em outras direções, enquanto as antigas morrem naturalmente. Para quem observa a planta em épocas diferentes, a impressão é que ela mudou de lugar.

A planta é conhecida popularmente como paxiúba ou “palmeira-andante”. A crença de que ela caminha pela floresta surgiu justamente por causa dessas "raízes escora", estruturas que podem atingir até dois metros de altura e lembram tentáculos ou grandes pernas de aranha. Porém, segundo Osvanda, não há evidência científica de deslocamento ativo do tronco.

"O resultado é uma ilusão. O tronco parece se deslocar quando, na verdade, permanece no mesmo lugar", explica.

Adaptação para sobreviver

As raízes que deram fama à paxiúba têm função essencial para a sobrevivência da espécie. Encontrada principalmente em áreas úmidas, como várzeas e regiões sujeitas a alagamentos, a planta precisa de um sistema eficiente de sustentação.

"A principal função dessas raízes é garantir estabilidade em solos pantanosos, instáveis e frequentemente alagados", explica a professora.

Além disso, as raízes ajudam na troca de gases em ambientes com pouco oxigênio e contribuem para que a planta alcance melhores condições de luminosidade.

Socratea exorrhiza pertence à família das Arecaceae, que ocorre da América Central até à Bacia do Amazonas — Foto: Carroll Perkins/iNaturalist


Importância para a fauna

A paxiúba também tem papel importante na cadeia alimentar da floresta. Seus frutos são consumidos por diferentes animais, como macacos, antas, porcos-do-mato e aves, incluindo tucanos.

"Ela serve de base para a cadeia alimentar local. Os animais que consomem seus frutos também ajudam na dispersão das sementes, contribuindo para a regeneração da floresta", afirma Osvanda.

As raízes ainda funcionam como abrigo para pequenos mamíferos, insetos e outros organismos.

Uso por comunidades tradicionais

A palmeira também faz parte do cotidiano de comunidades amazônicas. A madeira é utilizada na construção de casas e estruturas rústicas. Já as sementes são transformadas em artesanato e biojoias.

Há registros de usos na medicina tradicional, além do aproveitamento das raízes espinhosas para ralar mandioca.

"As raízes passam por um processo de preparação para que os espinhos fiquem mais resistentes e possam ser utilizados nesse trabalho", explica a pesquisadora.

Como identificar a paxiúba?

A espécie, conhecida cientificamente como Socratea exorrhiza, é típica da Amazônia, mas também ocorre em outras regiões tropicais da América Central e do Sul. A planta possui raízes aéreas espinhosas que formam uma espécie de cone, sustentando o tronco acima do solo.

O tronco é fino, reto e liso, podendo atingir entre 10 e 20 metros de altura — com registros de exemplares que chegam a cerca de 30 metros.

As folhas ficam concentradas na copa e têm formato semelhante ao de plumas. Além de paxiúba ou paxiubeira, a espécie também é conhecida como palmeira-andante, palmeira-caminhante e sete-pernas.


Risco de desaparecimento

Como outras espécies amazônicas, a paxiúba enfrenta ameaças como desmatamento, queimadas e mudanças climáticas. Segundo a pesquisadora, o desaparecimento da espécie poderia causar impactos em diferentes níveis do ecossistema.

"Os frutos alimentam diversos animais, as raízes servem de abrigo para a fauna e a espécie participa da dinâmica da floresta. Sua ausência provocaria efeitos em cascata", afirma.

Além dos danos ambientais, comunidades que utilizam a planta também seriam afetadas.

"Toda espécie possui uma função ecológica. A conservação da paxiúba é essencial para a manutenção da biodiversidade e do equilíbrio das florestas tropicais", conclui.

Fonte: G1/RO