Atriz compareceu a unidade policial do centro de São Paulo depois de colegas escreverem ofensas raciais no caderno da filha mais velha da artista

A atriz Samara Felippo está prestando depoimento na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância, no centro de São Paulo, nesta terça-feira (30). Na semana passada, a filha da artista foi alvo de racismo em uma escola da Zona Oeste da cidade, o colégio Vera Cruz.

O caso ocorreu no dia 22 de abril, uma segunda-feira. A atriz afirmou que colegas de sua filha mais velha, de 14 anos, escreveram ofensas racistas e arrancaram páginas do caderno da adolescente.

Samara registrou um boletim de ocorrência online tipificado como "preconceito de raça ou de cor", segundo a Secretaria de Segurança Pública. A coordenação da escola foi acionada pela polícia.

A escola suspendeu as estudantes por tempo indeterminado. Em entrevista ao g1, a atriz relatou ter pedido a expulsão das alunas. "Não vejo outra alternativa para um crime previsto em lei e que a escola insiste relativizar. Fora segurança e saúde mental da minha filha e de outros alunos negros e atípicos se elas continuarem frequentando escola", declarou Samara.

"Ainda estou digerindo tudo e talvez nunca consiga, cada vez que olho o caderno dela ou vejo ela debruçada sobre a mesa refazendo cada página dói na alma. Choro. É um choro muito doído. Mas agora estou chorando de indignação também", desabafou a atriz.

Pais de aluna acusada de racismo retiram adolescente da escola

Os pais de uma das jovens acusadas de racismo contra a filha mais velha da atriz Samara Felippo anunciaram, em grupo de mensagens com outros responsáveis da turma, que irão retirar a filha da escola Vera Cruz. No comunicado, eles afirmam ser "uma família progressista" e disseram que pediram desculpas à vítima e aos parentes dela.

"As escolas são microcosmos dessa nossa sociedade estruturalmente racista e violenta. Nos consideramos uma família progressista, que há anos busca caminhar e evoluir numa educação antirracista", diz a mensagem.

Os pais da aluna disseram ter "levado um susto" quando a filha contou voluntariamente, há uma semana, ao voltar da escola, que havia sido ela — entre outras amigas — quem praticou a violência contra a colega de classe.

"Nossa filha sempre foi uma menina educada e afetiva com as amigas nesses 13 anos de vivência escolar. Diferentemente do que alguns disseram nos grupos de Whatsapp, ela não é reincidente e nunca teve denúncias prévias de mau comportamento. É uma adolescente em formação como cidadã – como os filhos de todos vocês. Que comete erros e acertos, como todos nós já cometemos em nossas vidas", afirmou o casal.

A escola Vera Cruz informa que promoveu um encontro com mediação entre as duas alunas acusadas de racismo e a vítima. O colégio aponta que as jovens que cometeram o ato foram suspensas por tempo indeterminado e que não há conhecimento de qualquer outra atitude racista de ambas as estudantes. Ações de reparação ainda serão definidas pela instituição.

Nota da escola Vera Cruz

"No início desta semana, tomamos conhecimento de uma grave agressão racista entre alunos do 9º ano. Um caderno de uma aluna negra foi roubado, teve folhas arrancadas, uma ofensa de cunho racial altamente ofensiva foi escrita numa das páginas. Desde o primeiro momento, reconhecemos a gravidade deste ato violento de racismo, nomeando-o como tal, e imediatamente foram realizadas ações de acolhimento ao aluno agredido e sua família. Desde então, viemos trabalhando cuidadosamente sobre esse caso e nos comunicando muito intensamente com as famílias de todos os alunos envolvidos.

No dia seguinte, os agressores se identificaram e se apresentaram à Escola, com suas famílias, e diversas medidas foram tomadas, sempre no sentido de acolher o aluno vítima da agressão e sua família, bem como no sentido de garantir que os alunos agressores entendessem a dimensão de seu ato. Depois de amplo e intenso processo de apuração, foi possível promover um encontro entre os três alunos envolvidos, com mediação da escola.

Em seguida, os agressores foram informados das sanções definidas inicialmente, dentre elas, uma suspensão por tempo indeterminado, e proibição da participação no Estudo do Meio na Serra da Canastra. Novas sanções poderão ser adotadas, conforme apuração e reflexão sobre os fatos. É importante sublinhar que as alunas não reincidiram em agressões racistas; a Escola não tem conhecimento de qualquer outra atitude racista de ambas as alunas.


Fonte: O GLOBO