Região vive tensão devido à promessa de retaliação iraniana ao bombardeio ao seu consulado em Damasco; presidente Joe Biden afirmou que resposta ocorreria 'mais cedo do que se espera'

O Exército de Israel afirmou neste sábado que o Irã — que prometeu uma resposta ao ataque contra seu complexo diplomático em Damasco, no início do mês — "sofrerá as consequências de sua decisão de agravar a situação ainda mais", em referência à apreensão de um navio "vinculado" a Israel no Golfo pelas forças especiais marítimas da Guarda Revolucionária iraniana, segundo informações da mídia estatal. 

O episódio ocorre em meio à tensão na região provocada pela ameaça de uma represália "iminente" de Teerã ao bombardeio, que deixou 13 pessoas mortas, incluindo sete membros da Guarda. "Temos reforçado nossa preparação para proteger Israel de uma nova agressão iraniana. E também estamos preparados para responder", afirmou o porta-voz do Exército israelense, Daniel Hagari, em um comunicado publicado após as forças especiais marítimas da Guarda Revolucionária iraniana, o Exército ideológico da República Islâmica, terem interceptado um navio cargueiro "vinculado" a Israel no golfo.

Já o ministro das Relações Exteriores israelense, Israel Katz, acusou Teerã de estar "conduzindo uma operação pirata que viola o direito internacional".

— Apelo à União Europeia e ao mundo livre para que declarem imediatamente o Corpo da Guarda Revolucionária do Irão como uma organização terrorista e para que sancionem o Irã agora — apelou o ministro, citado pelo Times of Israel.

Anúncio feito dias antes

De acordo com a agência oficial Irna, "um navio cargueiro chamado 'MCS Aries' foi apreendido por forças especiais marítimas" como parte de "uma operação realizada com um helicóptero perto do Estreito de Ormuz". A agência especificou que o navio tem "bandeira portuguesa e [é] operado pela empresa Zodiac, pertencente ao capitalista sionista Eyal Ofer" e que estava "dirigido para águas territoriais" iranianas.

A apreensão foi confirmada pelo grupo de transporte. Em um comunicado, a MSC disse que há 25 tripulantes a bordo e que estão em "estreita colaboração com as autoridades competentes para garantir seu bem-estar e garantir seu retorno seguro à embarcação."

A empresa britânica Ambrey sublinhou que a Guarda Revolucionária "já tinha utilizado este método de abordagem na apreensão de navios no Estreito de Ormuz", único ponto de passagem para as exportações de vários produtores importantes do Oriente Médio. Teerã, segundo a Reuters, anunciou dias antes que poderia fechar a área ao tráfego marinho.

Potencial das forças iranianas

O mundo acompanha com atenção e preocupação os próximos movimentos de Teerã, o que, segundo o presidente dos EUA, Joe Biden, podem ocorrer "mais cedo do que se espera". No dia anterior, Washington reforçou suas bases militares no Oriente Médio e restringiu viagens de seus diplomatas em Israel. Em seguida, França, Reino Unido, Canadá, Austrália e Rússia pediram para que seus cidadãos evitassem viajar para o Irã, Líbano, Israel e os territórios palestinos ocupados.

Ao longo dos anos, boa parte dos confrontos entre Irã e Israel ocorreu sob uma lógica de guerra fria, por meio de ataques aéreos, marítimos, terrestres e ciberataques. E, na visão do professor associado de assuntos de segurança nacional na Escola Naval de Pós-Graduação e especialista nas forças armadas de Teerã, Afshon Ostovar, há um motivo pelo qual o Irã não é atingido.

— Não é que os adversários do Irã temam o Irã. É que eles percebem que qualquer guerra contra o Irã é uma guerra muito séria.

As forças armadas do Irã estão entre as maiores do Oriente Médio. São pelo menos 580 mil funcionários na ativa e cerca de 200 mil na reserva treinados, divididos entre o exército tradicional e a Guarda Revolucionária, de acordo com uma avaliação anual feita no ano passado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos.

O exército e a Guarda possuem forças terrestres, aéreas e navais separadas e ativas, sendo a Guarda responsável pela segurança da fronteira do Irã. O Estado-Maior das Forças Armadas coordena os ramos e define a estratégia geral. A Guarda também opera a Força Quds, uma unidade de elite encarregada de armar, treinar e apoiar a rede de milícias por procuração em todo o Oriente Médio, conhecida como "eixo de resistência". Essas milícias incluem o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen, grupos de milícias na Síria e no Iraque, e o Hamas e a Jihad Islâmica Palestina em Gaza.

Embora não sejam contabilizadas como parte das forças armadas do Irã, os analistas dizem que essas milícias são consideradas uma força regional aliada — pronta para a batalha, fortemente armada e ideologicamente leal — e poderiam ajudar o Irã se ele fosse atacado.

O comandante-chefe das forças armadas do Irã é o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que tem a última palavra em todas as decisões importantes e, segundo uma fonte do governo israelense citada pelo Wall Street Journal, está tendo contato direto com a Guarda.

Grande arsenal balístico

O Irã construiu uma grande frota de lanchas e alguns pequenos submarinos capazes de interromper o tráfego marítimo e o fornecimento global de energia que passam pelo Golfo Pérsico e pelo Estreito de Ormuz. Segundo o professor Ostovar, o país tem um dos maiores arsenais de mísseis balísticos e drones do Oriente Médio.

Isso inclui mísseis de cruzeiro e mísseis antinavio, bem como mísseis balísticos com alcance de até 2 mil km e capazes de voar baixo para escapar do radar, de acordo com especialistas e comandantes iranianos que deram entrevistas públicas à mídia estatal. Esses mísseis têm a capacidade e o alcance para atingir qualquer alvo no Oriente Médio, inclusive Israel.

Durante a guerra de oito anos do Irã com o Iraque na década de 1980, poucos países estavam dispostos a vender armas para Teerã. Quando Khamenei se tornou o líder supremo em 1989, um ano após o fim da guerra, ele encarregou a Guarda de desenvolver uma indústria de armas domésticas e investiu recursos nesse esforço, que foi amplamente divulgado pela mídia iraniana. Ele queria garantir que o Irã nunca mais tivesse que depender de potências estrangeiras para suas necessidades de defesa.

Hoje, o Irã fabrica uma grande quantidade de mísseis e drones internamente e priorizou essa produção de defesa, segundo especialistas. Suas tentativas de fabricar veículos blindados e grandes embarcações navais tiveram resultados mistos. O país também importa pequenos submarinos da Coreia do Norte, enquanto expande e moderniza sua frota produzida internamente.

Qual o ponto fraco do Irã?

A maior fraqueza do Irã é sua força aérea. Grande parte das aeronaves do país data da era do Xá Mohammed Reza Pahlavi, que comandou o Irã de 1941 a 1979, e muitas foram desativadas por falta de peças de reposição. O país também comprou uma pequena frota da Rússia na década de 1990, segundo especialistas.

Os tanques e veículos blindados do Irã são antigos, e o país tem apenas algumas embarcações navais de grande porte, segundo os especialistas. Duas embarcações de coleta de informações, a Saviz e a Behshad, posicionadas no Mar Vermelho, ajudaram os Houthis a identificar navios de propriedade de Israel para ataques, segundo autoridades dos EUA.

Além disso, apesar das Forças Armadas do Irã serem vistas como uma das mais fortes do Oriente Médio em termos de equipamento, coesão, experiência e qualidade do pessoal, estão muito aquém do poder e da sofisticação das forças armadas dos Estados Unidos, de Israel e de alguns países europeus, segundo especialistas. (Com AFP e NYT)


Fonte: O GLOBO