Na abertura do Legislativo, Li Qiang reconhece dificuldades econômicas em meio à crise de confiança doméstica e desafios geopolíticos

Foi um discurso sem surpresas, como esperado. Mas a estreia do primeiro-ministro Li Qiang na apresentação do relatório de trabalho do governo no Legislativo chinês, nesta terça em Pequim, pode ser vista como um exercício de cautela maior que o habitual até para os padrões contidos de um país onde as mudanças de direção em tempo real são geralmente percebidas nas entrelinhas, ou depois de já terem ocorrido.

No anúncio mais aguardado, a meta de crescimento da economia para este ano ficou como a do ano passado, em torno de 5%, o que será interpretado para ambos os lados: a menor em décadas, ou uma cifra ambiciosa, levando-se em conta os ventos desfavoráveis dos últimos meses. A segunda leitura parece mais condizente com a realidade, num momento em que o governo continua a enfrentar a queda na confiança de consumidores e investidores, em meio à prolongada crise imobiliária e um ambiente externo adverso.

Seguindo o protocolo dos anos anteriores, o discurso de Li Qiang na manhã desta terça (noite de segunda no Brasil) foi o primeiro ato na sessão anual do Congresso Nacional do Povo (CNP), o Legislativo chinês. Mas uma tradição de três décadas foi rompida, com o anúncio de que Li não concederá a entrevista coletiva que geralmente encerra o CNP. A decisão, revelada na véspera, pegou de surpresa jornalistas chineses e estrangeiros, já que essa era a única aparição anual do premier diante da imprensa.

Segundo o porta-voz do CNP, este passa a ser o novo normal. Salvo em caso de “circunstâncias especiais”, não haverá mais entrevistas coletivas do primeiro-ministro nos próximos anos, disse Lou Qinjian. Tido como um antigo e fiel aliado do presidente Xi Jinping, o primeiro-ministro Li, de 64 anos, assumiu o cargo no ano passado quando o país acabara de abolir a política de Covid zero. O fim das coletivas reforça a impressão de analistas sobre o papel menor do primeiro-ministro, e da tendência à introspecção do país sob Xi.

A expectativa de retomada vigorosa da atividade econômica após três anos de paralisações da pandemia não se cumpriu em 2023. Em seu discurso, Li exaltou a vitória decisiva na luta contra a Covid-19” e a expansão de 5,2% do PIB no ano passado, “que posicionou a China entre as de crescimento mais rápido entre as grandes economias do mundo”. Mas reconheceu as dificuldades. Entre elas, o ambiente externo de “conflitos geopolíticos mais agudos, protecionismo e unilateralismo em alta”. No plano interno, o impacto da pandemia “coincidiu com a queda na demanda externa e a falta de demanda doméstica”, disse Li.

Além de medidas de estímulo ao consumo e investimentos, o primeiro-ministro reiterou que a prioridade do governo será o “desenvolvimento de alta qualidade”, com investimento em tecnologias que tendem a dominar as cadeias produtivas nos próximos anos. 

O discurso segue a doutrina repetida por Xi nos últimos meses, de que o país deve concentrar seus esforços nas “novas formas de produção”, tanto para garantir a vantagem comparativa da China em setores estratégicos como para reforçar a autossuficiência diante das restrições impostas pelos Estados Unidos em áreas como a dos semicondutores.

— Vamos consolidar e ampliar nossa posição de liderança em indústrias como veículos inteligentes conectados por novas energias, aumentar o investimento em energia de hidrogênio, novos materiais, medicamentos inovadores e outros setores de ponta, além de fomentar novos motores de crescimento em áreas como bioindústria, voos espaciais comerciais e economia de baixa altitude.

Fora da economia, a geopolítica teve espaço modesto no discurso de Li. Mas ele não deixou de mencionar os princípios da diplomacia chinesa, como a defesa da multipolaridade e o repúdio “a qualquer tipo de hegemonia”, referência tácita aos Estados Unidos. Sobre Taiwan, um dos pontos de atrito com Washington, Li afirmou que o governo chinês apoia “o desenvolvimento pacífico das relações no estreito”, mas “rejeita firmemente atividades separatistas destinadas à independência de Taiwan e interferências externas”.

Num tema diretamente relacionado às tensões regionais e que também sempre desperta atenção na sessão anual do Legislativo, foi anunciado que o orçamento em defesa terá um aumento de 7,2% este ano, o mesmo percentual de 2023. As despesas com defesa dobraram desde que Xi Jinping chegou ao poder, em 2012, e este ano é o trigésimo consecutivo de aumento, de acordo com um levantamento do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IIEE), sediado em Londres.

Ainda assim, as cifras não chegam nem perto dos gastos militares dos EUA. Como observa em reportagem a revista americana neoconservadora “ The National Interest”, de acordo com os números oficiais o orçamento militar americano no ano passado foi ao menos quatro vezes maior que o da China (US$ 905,5 bilhōes contra US$ 219,5 bilhōes) e mais que o dobro mesmo se ajustado pelas diferenças de paridade de compra. Além disso, em média o orçamento militar da China entre 2019 e 2023 foi em média 1,23% do PIB, enquanto nos EUA ele foi o equivalente a 3,36% do PIB no ano passado, segundo o IIEE.


Fonte: O GLOBO