Fundo chega ao Brasil com foco nos apaixonados, mas ainda é restrito a quem pode desembolsar R$ 500 mil para aplicar no setor

Na esteira da paixão por carros nutrida pelos brasileiros, a gestora Azimut Brasil anunciou o lançamento de um fundo de investimentos que possibilita aos clientes investirem no mercado de compra e venda de carros clássicos de luxo.

O evento de lançamento foi na loja da Ferrari, na capital paulista. Na 'garagem' do fundo, já há duas Ferraris para lá de exclusivas. Uma delas é o modelo superesportivo 499P, que venceu a clássica corrida 24 Horas de Le Mans em 2023. Isso alçou a escuderia ao lugar mais alto do pódio 58 anos depois da última vitória da marca. Nesse projeto, a Azimut entrou desde a concepção.

– É um produto de luxo, que cresce duas vezes mais que o percentual do PIB. Dentro desse mercado de luxo, o de carros clássicos cresce duas vezes mais – diz Wilson Barcellos, CEO da Azimut Brasil.

O foco dos carros do fundo estão naqueles que valem mais de €1 milhão (cerca de R$5,3 milhões).

Mas o produto financeiro ainda é bem exclusivo. Nas palavras de Barcellos, é um clube seleto. Apenas clientes que já possuem gerenciamento de fortuna pela casa podem optar pelo investimento no negócio, que tem o valor de R$ 500 mil mínimo de aporte.

A outra raridade no espólio é a única Ferrari verde produzida no mundo, ainda na década de 1950.

Atualmente, o fundo possui 13 automóveis extraordinários, o equivalente a R$ 500 milhões. A meta de da gestora é dobrar o patrimônio em três anos. O alvo de valorização pretendido é de 8% ao ano, mais a variação cambial.

Ferrari 499P, que alçou a scuderia italiana ao pódio de Le Mans 50 anos depois da última vitória — Foto: Azimut AHE / Reprodução

O setor, que teve a menor variação negativa comparado a outros mercados de luxo durante a pandemia, registrou valorização de 185% em dez anos. Apreciado por quem tem alto poder aquisitivo, o mercado de relógios teve variação de 147%; de vinhos, 162%, e o de arte, 91%.

A equipe de gestão do fundo conta com a parceria da própria Ferrari, além da Rossocorsa, uma tradicional concessionária da marca italiana. Outras especialistas em gestão e restauração de veículos clássicos também monitoram o mercado em todo mundo, na busca de raridades que possam se valorizar e agregar ao bolso dos investidores:

– Às vezes, modelos que nem as fábricas sabem da existência, por serem muito antigos, conseguimos comprar e restaurar. E isso valoriza e muito.

Apesar do piso de investimentos ser alto, o chefe da gestora disse que recebeu diversas mensagens na busca pelo investimento:

– Fiquei surpreso com a paixão do brasileiro por acessar produtos que eles tinham na infância como um grande objeto de desejo e ainda hoje como uma paixão.

A exclusividade também está no retorno. Para auferir algum resultado, a gestora pede um tempo mínimo de dois anos para a requisição de futuros rendimentos pelos clientes. E ainda há um período de 12 meses a mais para o valor “cair na conta” após o pedido.

Segundo a plataforma de análises de mercado Statista, o mercado mundial de carros clássicos movimentou mais de US$ 32 bilhões em 2022. A estimativa é que essa cifra chegue a US$ 46 bilhões em 2026.

Em maio de 2022, a venda do clássico de 1955 Mercedes Benz 300 SLR Uhlenhaut Coupé, que teve apenas duas unidades produzidas, atingiu a marca recorde de US$ 142 milhões, algo em torno de R$ 700 milhões.

A Federação Mundial de Veículos Antigos (Fiva) define um modelo antigo como aquele que tenha pelo menos 30 anos, preservados e mantidos em condições historicamente corretas. Mas, apesar de serem feitos para locomoção, esses automóveis antigos não podem ser utilizados como meio de transporte diário.

Paixão por clássicos também aquece mercado no Brasil

Uma pesquisa feita pela JDA encomendada pela Fiva em 2021 apontou que o segmento movimentava cerca de R$ 32,6 bilhões por ano no Brasil. Cerca de metade desse valor era de gastos diretos, como seguro, manutenção, restauração e combustível e R$12,3 bilhões da venda dos veículos antigos. A média dos valores de cada automóvel clássico na época da pesquisa era de R$129 mil.

A pesquisa também apontou que o país tinha uma frota de veículos históricos na casa dos 3,2 milhões, representando 3% de toda frota. Procurada, a Secretaria Nacional de Trânsito não informou um número atualizado.

José Paulo Parra é um profundo conhecedor do setor brasileiro. Para ele, o veículo antigo era uma paixão um pouco restrita, mas se tornou um hobby que virou negócio. Ele diz que a apreciação de modelos clássicos furou a bolha por conta de programas de televisão.

Criador do Circuito de Leilões, o evento reúne entre uma e duas centenas de carros à venda em cada uma das seis edições ao longo do ano. Os números impressionam:

– São modelos comprados por asiáticos, americanos e entram no catálogo até bicicletas e motos. E a taxa de novos clientes cresce 40% a cada edição.

Atualmente, a busca maior são pelos chamados neocolecionáveis, veículos produzidos nas décadas de 1980 e 1990. O investimento para adquirir um clássico pode iniciar nos R$ 30 mil e alcançar os milhões.

As marcas dos veículos do fundo da Azimut também apresentam alta na procura por aqui. Uma Ferrari 360, produzida entre o fim dos anos 1990 e início dos 2000 (e que ainda não tem 30 anos), custava US$ 40 mil há dois anos. Hoje, o modelo já está avaliado em mais de US$ 100 mil.

Clássicos são exportados em contâineres ou navios Ro-Ro, próprio para transporte de carros — Foto: Luiz Gustavo Avessani / Divulgação

Modelos clássicos da Porsche também estão em franca valorização. O apelo dos veículos antigos da marca alemã, como as primeiras gerações do 911, Boxster e Cayman, têm atraído o interesse do público jovem.

Os que mais brilham os olhos dos compradores internacionais são os fabricados no país. Por conta da indústria nacional jovem, muitos dos modelos chamam a atenção pelas particularidades no design, apesar da base mecânica em veículos consagrados lá fora:

– Os carros da Volks, por exemplo, tem grande aceitação porque derivam da plataforma do Fusca. Isso torna a manutenção fácil em qualquer lugar – diz Parra, que aponta o mercado americano como grande apaixonado de modelos como Kombi, Karmann-Ghia e SP2, clássicos variados do tradicional modelo alemão. Modelos como esse ultrapassam fácil os três dígitos.

Trabalhando com exportação de clássicos há mais de 15 anos, Luiz Gustavo Avessani conta que, em média, exporta de quatro a seis carros antigos por mês. A conta de uma transação, que inclui documentos, transporte ao Porto de Santos, taxas despachantes e o frete marítimo, gira em torno de US$ 5 mil para os EUA e Europa.


Fonte: O GLOBO