O caráter intermitente da energia eólica gera riscos ao abastecimento do país, que tem sofrido com cortes após temporais. Em São Paulo, essa academia ficou dias sem luz
É preciso ampliar investimento na rede do país para evitar interrupções no fornecimento de energia, dizem ONS e especialistas

Em agosto, uma falha envolvendo parques eólicos e solares no Nordeste provocou um apagão em quase todo o Brasil. Dias depois, uma onda de calor tomou várias cidades, o que se repetiu com maior intensidade em novembro e também neste fim de semana. Na do mês passado, o consumo de energia bateu recorde dois dias seguidos, superando o patamar dos 100 gigawatts (GW).

Também em novembro, temporais severos afetaram as redes de distribuição de regiões metropolitanas como as do Rio e de São Paulo, deixando consumidores dias sem eletricidade. Os episódios mostram que o setor elétrico brasileiro está mais vulnerável aos fenômenos climáticos, que tendem a se intensificar com o aquecimento global.

De um lado, na geração, fontes renováveis intermitentes (que não são constantes) dependem da incidência de sol e da intensidade dos ventos. Do outro, tempestades e calorão afetam redes de distribuição e a demanda. Soma-se a isso, neste ano, o fenômeno El Niño, que agrava enchentes no Sul e seca no Norte.

Em entrevista ao GLOBO, Luiz Carlos Ciocchi, diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), diz que a robustez da rede, a intermitência das novas fontes e os eventos climáticos estão intimamente relacionados. Segundo ele, em alguns momentos, mais de 90% da geração elétrica no Brasil vêm de placas solares e aerogeradores.

— Há alguns anos, o setor elétrico não tinha nada a ver com o clima. Mudou tudo. Toda a discussão de transição energética vem do clima. A mudança climática instigou o mundo todo a buscar novas fontes de energia elétrica. Isso você percebe nas delegações na COP28 — diz Ciocchi, referindo-se à Conferência do Clima da ONU, em Dubai, onde participou de debates com operadores elétricos de outros países.

Reforço a linhas de transmissão

Para esse novo cenário, ele diz que o ONS foca no reforço de linhas de transmissão, que somam 180 mil quilômetros, e em ferramentas mais avançadas de previsão do tempo. Esta semana, prevê-se aumento de carga por causa das altas temperaturas nos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste e Sul.

Para o verão, ele espera calor acima da média, o que significa maior demanda de energia para refrigeração, por exemplo, e tem dúvidas sobre se haverá chuva para repor reservatórios de hidrelétricas:

— Temos de pensar sempre no pior cenário. Estamos nos preparando, sim, para altas temperaturas. Temos de contar com térmicas para atender as pontas. Temos de considerar uma situação em que a estação chuvosa chegue atrasada, em meados de dezembro. Portanto, temos de ter cuidado com os reservatórios. Estamos nos preparando para um cenário bastante agressivo e situação mais severa.

Embora a expansão da geração no país hoje seja baseada em eólica e solar, Ciocchi avalia que é importante seguir ampliando outras fontes para dar mais robustez ao sistema:

— Isso é para garantir que a intermitência dessas fontes seja amparada por uma energia despachável, como hidrelétrica ou térmica. Ao final dos dias, quando o sol cai, temos de injetar energia firme para atender a uma carga de 20GW. Isso acontece com as hidráulicas e, para atender o pico da demanda, entram as termelétricas. A eólica é mais forte na madrugada. Uma compensa a outra, mas não na totalidade. E um dos desafios é justamente a previsão dos ventos para fazer o planejamento.

Efeito dos ventos

O diretor do ONS observa que, na outra ponta, os ventos também afetam o fornecimento de energia, com os danos de quedas de árvores nas redes de distribuidoras. Segundo ele, empresas de transmissão do Sudeste e do Sul têm reportado ventos com velocidade de até 140 quilômetros por hora, acima do máximo de 100km/h previstos nos estudos para os projetos. Além disso, o calor extremo afeta a estrutura das linhas e o funcionamento de transformadores, ele diz.

A economista Clarice Ferraz, diretora do Instituto Ilumina, tem diagnóstico parecido. Ela diz que o sistema precisa de mais investimentos para enfrentar eventos climáticos sem cortes no abastecimento. E defende um plano nacional de melhoria de redes das distribuidoras, com ordenamento de postes, aterramento de fiação em grandes centros e modernização de equipamentos:

— Está na hora de discutir um plano de reestruturação, que poderia ser incorporado na revisão das concessões das distribuidoras.

Há no país 53 distribuidoras reguladas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que precisam requerer a renovação das concessões 36 meses antes do encerramento. Oito têm até o fim de 2024 para pedir, e duas acabaram de fazer isso: EDP (ES) e Light (RJ). A Enel Rio tem só até o fim deste ano.

Subsídios dificultam

Para Jerson Kelman, ex-diretor-geral da Aneel, a ponta da distribuição é mesmo o maior desafio. As estruturas estão vulneráveis a ventos, chuvas, picos de consumo no calor e flutuações na geração distribuída, com mais painéis solares privados conectados à rede de baixa tensão.

— Pelo lado econômico, é preciso estancar a bola de neve formada por leis que criam subsídios custeados por quem não pode em benefício de quem não precisa. Por exemplo: uma empresa ou família com recursos para instalar placas fotovoltaicas recebe, em média, 14 vezes mais subsídios que uma família carente com direito à tarifa social — diz Kelman.

Para ele, a divisão da conta dos subsídios entre todos os consumidores enfraquece as distribuidoras e sua capacidade de investimento:

— O encarecimento da conta de luz aumenta a inadimplência e o furto de energia, com menos consumidores no ambiente regulado para repartir o custo da segurança do sistema.

‘Dilemas iguais no mundo’

Ciocchi, do ONS, concorda:

— A geração solar distribuída, no telhado das casas, também injeta energia na rede, gerando dificuldade operacional, que começa a se refletir na distribuidora e traz desafios. Os dilemas do Brasil são os mesmos no mundo. Precisamos de um corpo técnico preparado para as novas fontes.

Ele também defende maior fiscalização na fabricação de equipamentos para o setor:

— Um equipamento que tem quer ser acionado em 20 milissegundos precisa atuar nesse tempo e não em 100 milissegundos. Para o elétron que trafega na velocidade da luz, isso faz toda a diferença. Quando você tem um parque solar e eólico pequeno, isso pode passar despercebido. Mas para um como o do Brasil, é importante que esses componentes sejam verificados.

Rafael Vernini, coordenador de Inteligência de Mercado da Safira Energia, lembra que investir em fontes renováveis de energia é uma forma de combater mudanças climáticas e destaca o caráter complementar delas. Para ele, o sistema ficará mais seguro se alinhar aumento da geração ao reforço na transmissão:

— É importante também a expansão da rede básica de transmissão, que deve crescer 21% até 2027, chegando a cerca de 217 mil quilômetros.


Fonte: O GLOBO