Quem não conhece alguém que resolveu parar de tomar leite ou de consumir laticínios porque achou que fazia mal?

A publicação do livro “Que Bobagem! Pseudociências e outros absurdos que não merecem ser levados a sério”, da editora Contexto, de minha autoria em parceria com o jornalista Carlos Orsi, teve grande repercussão e, para nossa grata surpresa, chegou ao topo de listas de mais vendidos em não ficção.

Ficamos muito felizes de ver um livro de popularização da ciência mobilizar o debate público do país, mas percebemos que o debate acabou restrito a alguns poucos temas, como homeopatia, psicanálise e acupuntura.

Mas nem só de agulhas, bolinhas de açúcar e divãs trata o livro. Discutimos ali também pseudociências menos vistosas, mas que movimentam bilhões globalmente tentando empurrar para o público produtos e serviços desnecessários, e para isso distorcem a ciência.

Quem não conhece alguém que resolveu parar de tomar leite ou de consumir laticínios porque achou que fazia mal? O mercado de produtos sem lactose, ou de supostos “substitutos” como leite de amêndoas ou de arroz, vem crescendo e conquistando adeptos que talvez não saibam que estes produtos, além de desnecessários para a maioria das pessoas, não são substitutos nutricionais do leite. A intolerância a lactose é uma condição real, mas muito menos comum do que o marketing sugere, principalmente em populações ocidentais.

E por que existem pessoas que não conseguem digerir lactose? Na verdade, talvez a pergunta devesse ser o contrário: por que existem adultos que conseguem? A lactose é um açúcar presente no leite e requer uma enzima especial, chamada lactase, para ser digerida. 

Mamíferos em geral nascem bem equipados, com lactase e também com bactérias que ajudam no serviço, mas vão perdendo esta capacidade à medida que se tornam adultos. Isso acontece quando uma proteína reguladora “desliga” o gene da lactase, como se estivesse sinalizando que o animal já cresceu e pode desmamar. O que é diferente em humanos?

Parece que neste caso, a evolução fez uma “gambiarra”. Mais ou menos 7.500 anos atrás, quando começamos a domesticar animais que produzem leite, surgiu uma mutação que impede o desligamento do gene da lactase, que então se mantém ativo durante toda a vida. Isso pode ter sido vantajoso por uma série de motivos. 

A possibilidade de digerir leite pode ter aumentado as chances de sobrevivência em tempos de seca e pouca colheita, pode ter aumentado a taxa de fertilidade, ao diminuir o tempo necessário para o desmame das crianças, liberando a mãe para engravidar novamente. Pode ter reduzido infecções causadas por água contaminada, já que o leite é uma fonte alternativa de hidratação. Pode ter permitido uma maior diversidade de bactérias no intestino, trazendo outras vantagens. 

Quaisquer que sejam as causas, o fato é o que o gene foi selecionado e se espalhou pela Europa, onde a criação de animais para produção de leite e derivados era uma tradição.

Já na Ásia, onde a domesticação de animais de ordenha não era tão popular, não houve pressão seletiva para favorecer esta mutação. Não por acaso, o continente concentra a maior parte da população mundial que é realmente intolerante à lactose.

Embora o número de pessoas no mundo que de fato sofre com intolerância a lactose sejam considerável, o mercado de alternativas ao leite tenta vender a ideia de que nenhum ser humano adulto deveria consumir leite porque nenhum outro mamífero adulto consome e portanto, “não evoluímos para isso”. 

Curiosamente, os humanos capazes de digerir lactose só conseguem fazer isso justamente por causa da evolução, processo que não é dirigido: nenhuma espécie evolui “para isso” ou “para aquilo”, a evolução acontece ao acaso ou em resposta à pressão seletiva. Ao contrário do discurso pseudocientífico, que evolui para bater a carteira dos desavisados.


Fonte: O GLOBO