Várias práticas intencionais na divisão dos estudantes por turmas levam a níveis altos de separação entre brancos e negros

O nível de segregação das escolas brasileiras se assemelha ao verificado nos EUA, país em que várias práticas intencionais na divisão dos estudantes por turmas levam a níveis altos de separação entre brancos e negros. Essa situação é verificada quando, dentro de uma mesma escola, há turmas predominantemente brancas ao lado de outras majoritariamente negras. 

No Brasil, porém, mesmo os mecanismos de separação entre os alunos não sendo explícitos, ainda assim terminamos por reproduzir dentro das escolas um padrão de alta desigualdade racial. Essas são constatações de um estudo do sociólogo Josh Leung-Gagné, da Universidade Stanford, e que acaba de ser publicada num dos periódicos acadêmicos da Associação de Pesquisadores em Educação dos EUA (Aera, na sigla em inglês).

Para chegar a essas conclusões, Leung-Gagné comparou a distribuição por cor ou raça de alunos dos 5º e 9º anos do ensino fundamental brasileiro com os padrões verificados em colégios de ensino médio da Carolina do Norte, estado com altos níveis de segregação. Apesar dos resultados finais serem parecidos, o estudo identifica que os mecanismos que levam a esse quadro são distintos.

Na Carolina do Norte, assim como ocorre em outros estados americanos, um dos fatores indutores da segregação racial é o “tracking”, que consiste basicamente na separação das turmas a partir do desempenho acadêmico dos alunos. 

O que poderia ser considerado simplesmente um critério de mérito acaba sendo, por várias razões, uma forma de perpetuar desigualdades, já que o nível socioeconômico das famílias é o principal fator de impacto no desempenho escolar. Como estudantes negros vêm, em média, de famílias mais pobres, carregam já uma desvantagem que nada tem a ver com seu esforço.

Além disso, há também estudos nos EUA que mostram que os critérios utilizados por professores para encaminhar estudantes às turmas mais avançadas não são totalmente neutros, fazendo com que alunos negros, mesmo tendo igual desempenho em testes padronizados que seus colegas brancos, tenham menos probabilidade de serem identificados como aptos a fazerem parte das turmas mais avançadas.

O intrigante nos achados do estudo de Leung-Gagné é que essas práticas são raras no Brasil. Aqui, a segregação racial ocorre, nas palavras do autor, “ao acaso”. Mesmo assim, a pesquisa identificou salas de aula na mesma escola onde numa turma a proporção de negros chegava a 70%, enquanto em outra não passava de 30%.

A constatação de que a segregação na divisão por turmas dentro da escola ocorre aqui “ao acaso” não significa que devam ser naturalizadas. Uma vez que esse é um dado facilmente observável já no início do ano letivo, Leung-Gagné argumenta que cabe às escolas uma ação proativa para evitar que isso aconteça desde cedo.

A constatação dos altos níveis de segregação no interior das escolas brasileiras reforça a necessidade de ampliarmos nosso conhecimento sobre as práticas que, mesmo implícitas, estejam contribuindo para esse quadro. Sabemos que a segregação racial é reforçada pelo acesso diferenciado a escolas. 

Porém, uma parte relevante de nossa desigualdade é construída também no interior das escolas e das salas de aula. Sem identificar e buscar soluções para esse problema, continuaremos reproduzindo desigualdades dentro do sistema educacional.


Fonte: O GLOBO