Taxa caiu pela primeira vez desde 2017; derrubada de floresta ficou em 11.568 km², segunda pior marca em 15 anos

Porto Velho, RO - A taxa anual de desmatamento da Amazônia Legal caiu pela primeira vez desde 2017, apesar de continuar alta. Com um recuo de 11,3%, a área de floresta derrubada nos 12 meses ficou em 11.568 km², um valor ainda acima da média da década passada e segunda pior marca do governo Bolsonaro. A área devastada é quase dez vezes a do município do Rio de Janeiro.

Os dados calculados pelo sistema Prodes, do Inpe, causaram uma certa surpresa nos cientistas que estudam o tema. O sistema Deter, também do Inpe (que monitora desmatamento em tempo real, mas tem sensibilidade menor), apontava para uma tendência de alta.

A taxa anunciada agora é referente ao período que vai de agosto de 2021 a julho de 2022. O intervalo que vai do meio de um ano ao meio do ano seguinte é o ano-referência que o Inpe usa para estimar o desmatamento anual. Os dados que o Prodes mostra agora ainda não incluem a intensificação do desmate que o Deter mostrou no segundo semestre deste ano.

Os estados que mais puxaram a queda do índice entre os anos-referência de 2020/21 e 2021/22 foram Pará e o Mato Grosso, tradicionalmente aqueles que mais desmatam, com quedas de 20,9% e 13,9%, respectivamente.

O Amazonas foi o único estado onde o desmatamento subiu de um período para o outro, com um aumento de 13%.

O sudeste amazonense, na região de Lábrea (AM), é uma das que mais preocupam autoridades ambientais. A região, onde termina a rodovia Transamazônica, abrigar muito corte raso de floresta e queimadas dentro de áreas classificadas como florestas públicas não destinadas, um indício forte de que há muita grilagem ali.

A taxa medida pelo sistema Prodes é mais sensível e precisa do que aquela medida pelo sistema Deter porque conta com um número maior de imagens de satélite, obtidas em momentos diferentes. A presença de nuvens sobre a região afeta mais a medição em tempo real do que a medição anual do desmatamento, que é mais precisa.

O mapeamento do Prodes é feito com base em imagens dos satélites Landsat-8 e Landsat-9 da Nasa, e imagens complementares do Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia. São registradas e quantificadas as áreas desmatadas maiores que 6,25 hectares, tamanho aproximado de sete campos de futebol. Foram usados 108 conjuntos de imagens para criara a estimativa, sendo que há outros 121 devem ser usadas ainda para aprimorar a precisão da medida.

Em 2022, o Inpe tornou mais precisa a diferenciação de subtipos de desmatamento que ocorrem na região. O Prodes passa agora a diferenciar, por exemplo, o desmatamento ocorrido por corte raso ou mineração daquele que ocorre por "degradação progressia". Essas são áreas já parcialmente exploradas para madeira ou trechos de floresta que ficam na borda de áreas desmatadas por corte raso, mais vulneráveis a perturbações.

"Importante destacar que não houve mudança na metodologia para detecção do desmatamento pelo Prodes, esses desmatamentos sempre foram computados, apenas não eram apresentados em subclasses separadas", afirma a nota técnica do Inpe.

"O Inpe reforça que os valores apresentados nessa nota são uma estimativa da taxa de desmatamento para o PRODES 2022", completa o documento "A taxa consolidada será apresentada no primeiro semestre de 2023, quando for completado o processamento de todas as 229 cenas que recobrem a Amazônia Legal Brasileira."

O Ministério do Meio Ambiente afirmou que o titular da pasta, Joaquim Leite, não deve se pronunciar hoje sobre os números. O Ministério da Justiça afirmou em nota que a operação Guardiões do Bioma, iniciativa do governo federal para combater desmatamento, queimadas e invasões, ajudou a derrubar a taxa do desmate.

"De março a julho de 2022, a operação causou prejuízo de R$ 481,2 milhões aos criminosos ambientais como resultado de bens apreendidos e 863 mil multas aplicadas em áreas mapeadas", afirmou nota da pasta "Houve a fiscalização de mais de 80 serrarias; apreensão de 13,8 mil m³ de madeira; prisão de mais de 350 pessoas, entre outras ações."

Legado negativo

A divulgação dos números de desmatamento provocou uma reação imediata por parte de ambientalistas. O Observatório do Clima, maior coalizão de ONGs do setor, afirma que apesar da redução entre uma ano e outro, a taxa de desmatamento continua em níveis altos e consolida um resultado ruim para atual gestão do governo federal.

"O governo de Jair Bolsonaro termina com um aumento de 59,5% da taxa de desmatamento na Amazônia em relação aos quatro anos anteriores (governos Dilma e Temer). É a maior alta percentual num mandato presidencial desde o início das medições por satélite, em 1988", afirmou o grupo, em nota pública.

Nas contas da ONG, o governo Bolsonaro se encerra com um legado de devastação anual acima de 11 mil km² em média. O período Dilma/Temer oscilou entre 5,5 mil e 7,2 mil em média. No primeiro mandato de Lula o desmatamento médio anual foi maior, de 21,6 mil, mas no segundo caiu para 9,8 mil.

Não há uma explicação clara para a redução de 11,3% do desmate de um ano para outro, afirmam especialistas. Eles, no entanto, reconhecem que em 2022 houve uma pequena melhora nas ações de combate ao problema, mas afirmam que a ação do governo federal teve impacto limitado.

— Parte dessa redução pode ser explicada pelo aumento das ações de controle dos órgãos estaduais de meio ambiente, em especial do Pará, mas parte também pode ser explicada pelo aumento das chuvas em Mato Grosso e Pará — diz o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador técnico do Observatório do Clima e chefe do MabBiomas, projeto independente que mapeia a ocupação territorial no Brasil.

Segundo o cientista, o discurso de que a política contra desmatamento pune agricultores que estão dentro da lei não encontra respaldo em fatos.

— O consórcio MapBiomas encontrou indícios de ilegalidade em 98% dos desmatamentos em 2021, e os órgãos de controle só atuaram em 27% da área desmatada. A impunidade ainda predomina e precisa ser enfrentada com determinação no novo governo — diz Azevedo.

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, grupo que reúne cientistas, ONGs e empresas do agronegócio, também se pronunciou, afirmando que, apesar da queda no desmate, o número alto indica que o governo "tem sido descuidado com a preservação dos biomas".

— Agora, a atenção deve ser não apenas para as ações que serão tomadas pelo novo governo, como também para o papel-chave que será desempenhado pelo Congresso. As medidas para redução do desmatamento e a formulação de uma economia baseada na floresta em pé passam essencialmente pelo Legislativo — afirmou Marcelo Furtado, um dos coordenadores da coalizão.


Fonte: O GLOBO